Autor: Mario Soares Neto
Email: mario.consultapopular@yahoo.com.br
Pagina:

Este texto já foi lido: 79212 vezes, e recebeu 1 comentarios
 Mario Soares Neto
 

Data da publicação: 08/09/2009

Resumo Analítico: O Capital de Marx - A Mercadoria

 

O CAPITAL / Karl Marx.
Editora: Nova Cultural, Coleção Os Economistas, 1988.
 
Livro I – O Processo de Produção do Capital
Seção I – Mercadoria e Dinheiro
Capítulo I – A Mercadoria
 
RESUMO ANALÍTICO
 
O presente resumo analítico da obra O Capital: crítica da economia política, de Karl Marx, é elaborado por Mario Soares Neto. Trata-se de importante ferramenta no processo de investigação acerca da referida obra. Tem como objetivo a apreensão de conceitos, leis, categorias e, sobretudo, o método utilizado por Marx na perquirição das origens, desenvolvimento e condições de superação da sociedade burguesa moderna. O resumo é um dos instrumentos necessários para o desenvolvimento de projeto de pesquisa sob título: O trabalho como categoria fundante do ser social, orientado pelo professor Dr. Mauro Castelo Branco de Moura, docente da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA. O método de estudo constitui em três momentos distintos e ao mesmo tempo conexos, a saber: (i) leitura imanente realizada parágrafo por parágrafo, extraindo-se as idéias centrais de cada um; (ii) realização de fichamento com as idéias centrais dos parágrafos; (iii) elaboração de resumo analítico por capítulo. O presente resumo analítico é referente ao primeiro capítulo d’ O Capital, “A Mercadoria”, que vai até o parágrafo 136.
 
1.      Os dois fatores da mercadoria: valor de uso e valor
Para Marx, a riqueza na sociedade capitalista apresenta-se como uma “imensa coleção de mercadorias”, a mercadoria é, portanto, forma elementar da sociedade burguesa moderna. Por isso a investigação de Marx, em O’ Capital começa pela mercadoria.
Marx nos explica no primeiro capítulo d’ O Capital, que a mercadoria possui duplo fator, a saber: Valor de uso e Valor (ou substância do valor, grandeza do valor). E, antes de tudo, ela é um objeto externo, uma coisa. Ademais, pelas suas propriedades satisfaz necessidades humanas de qualquer espécie, seja do estômago ou da fantasia, são valores de uso, possuem utilidade, compreender isto é fundamental.
O exame dos valores de uso pressupõe segundo Marx, sempre sua determinação quantitativa, como dúzia de relógios, vara de linho, tonelada de ferro etc. O que interessa aqui é a utilidade desses elementos, pois, “é a utilidade de uma coisa que faz dela um valor de uso”, que se realiza no uso ou no consumo humano.
Importante compreender que o valor de uso é o conteúdo material da riqueza, qualquer que seja a formação social em que se viva. Desde que o homem passou a transformar a natureza, a partir da sua ação consciente, se produz valores de uso. A sociedade mais primitiva, na medida em que os seus habitantes trabalhavam, produzia valores de uso, tais como: machados, flechas etc. Uma coisa, portanto, pode ser útil e produto do trabalho humano, sem ser mercadoria, a exemplo do trigo produzido pelos camponeses na Idade Média que era entregue como tributo para o senhor feudal. 
A peculiaridade da sociedade burguesa é que ao mesmo tempo, o conteúdo material da riqueza social é portador de valor de troca (onde valores de uso de uma espécie se trocam contra valores de uso de outra espécie, numa relação que muda constantemente no tempo e no espaço). Ademais, Marx adverte que como valores de uso as mercadorias são, antes de mais nada, de diferente qualidade, como valores de troca só podem ser de quantidade diferente.
As mercadorias são produtos do trabalho humano, dispêndio de cérebro, nervos, mãos e sentidos do homem. A grandeza do valor contido nas mercadorias é medida pelo quantum de trabalho, que é a “substância constituidora de valor”. Portanto, o que gera valor é tão-somente o trabalho. Marx aqui opera algo magistral, que o diferencia dos economistas burgueses, a saber: a descoberta do trabalho como fundamento da forma valor.
Prosseguindo na sua investigação Marx analisa o tempo de trabalho socialmente necessário. Sendo este “aquele requerido para produzir um valor de uso qualquer (ferro, linho etc), nas condições dadas de produção socialmente normais, e com o grau social médio de habilidade e de intensidade de trabalho.
Neste sentido,“o quantum de trabalho socialmente necessário ou o tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de um valor de uso é o que determina a grandeza de seu valor”, ademais, “enquanto valores todas as mercadorias são apenas medidas determinadas de tempo de trabalho cristalizado” (MARX, 1988, p. 48)
Em seqüencia Marx analisa a Força Produtiva de Trabalho. Para ele, “a força produtiva de trabalho é determinada por meio de circunstâncias diversas, entre outras pelo grau médio de habilidade dos trabalhadores, o nível de desenvolvimento da ciência e sua aplicabilidade tecnológica, a combinação social do processo de produção, o volume e a eficácia dos meios de produção e as condições naturais” (MARX, 1988, p. 48).
            Neste sentido, “quanto maior a força produtiva do trabalho, tanto menor o tempo de trabalho exigido para a produção de um artigo, tanto menor a massa de trabalho nele cristalizado, tanto menor o seu valor” (MARX, 1988, p. 49).
2.      Duplo caráter do trabalho representado nas mercadorias
As mercadorias, como vimos, inicialmente, apresentam-se de maneira dúplice, como valor de uso e valor de troca. O que produz os valores de uso, o conteúdo material da riqueza social, é, portanto, o trabalho (a substância do valor), sendo a medida de grandeza do valor o tempo de trabalho socialmente necessário.
O trabalho de produzir valores de uso é considerado por Marx, trabalho útil, criador dos valores de uso, condição de existência do homem, independente de todas as formas de sociedade. Os valores de uso são qualitativamente diferentes, se ao contrário, não poderiam confrontar-se como mercadorias. Portanto, somente valores de uso distintos trocam-se com valores de uso distintos. Visto que valores de uso não podem defrontar-se como mercadorias, caso eles não contenham trabalhos úteis qualitativamente diferentes.
Uma questão importante é que o trabalho não é a única fonte dos valores de uso que produz, da riqueza material. Existem utilidades para o homem que não são mediadas pelo trabalho, a exemplo do ar, do solo virgem, dos gramados naturais, das matas etc.
            Marx prossegue na sua investigação analisando a divisão social do trabalho, esta, condição, segundo ele, para a produção de mercadorias (não há produção de mercadorias sem divisão social do trabalho), embora, inversamente, a produção de mercadorias não seja a condição de existências para a divisão social do trabalho. Por exemplo, na antiga Comunidade Hindu o trabalho era socialmente dividido sem que os produtos se tornem mercadorias. Ou seja, a divisão social do trabalho não significa que é necessariamente voltada para a produção de mercadorias.
      No que tange ao duplo caráter do trabalho, temos que, todo trabalho é, por um lado, dispêndio de força de trabalho do homem no sentido fisiológico, e nessa qualidade de trabalho humano igual ou trabalho humano abstrato gera o valor da mercadoria. Todo trabalho é, por outro lado, dispêndio de trabalho do homem sob forma especificamente adequada a um fim, e nessa qualidade de trabalho concreto útil produz valores de uso.
Por exemplo, a alfaiataria e a tecelagem são trabalhos uteis distintos, qualitativamente diferentes, trabalhos concretos. Porém, apesar de serem atividades produtivas distintas são ambas dispêndio produtivo de cérebro, músculos, nervos, mãos etc. humanos.
3.      A Forma de Valor ou o Valor de Troca
As mercadorias vêm ao mundo sob a forma de valores de uso, como “coisas” úteis, ou sob forma de corpos de mercadorias, como ferro, linho, trigo, etc. Antes de adquirirem valor, contém, portanto, propriedades que satisfazem necessidades humanas, como visto. 
A)    Forma Simples, Singular ou Acidental de Valor
                                                                  Forma Equivalente / Forma Relativa
                                       VALOR (Propriedade objetiva, extra-sensorial)
MERCADORIA         (Quantidade) / Trabalho Abstrato – Propriedade social.
                                        VALOR DE USO
                                       (Qualidade) / Trabalho Concreto.
   Produz utilidades. Trabalho qualitativamente diferenciado.
            A figura acima trata do duplo caráter da mercadoria e do trabalho representado nas mercadorias. As mercadorias, por um lado, são valores de uso, ou seja, coisas úteis, constructos de trabalho útil, concreto, trabalho qualitativamente diferenciado, por exemplo: tecelagem, alfaiataria etc. Ademais, são portadoras de Valor, esta, uma propriedade objetiva, extra-sensorial, produzida mediante trabalho abstrato que é uma propriedade tipicamente social. Por fim, a forma valor pode se apresentar sob a Forma Equivalente de Valor e/ou Forma Relativa de Valor são, portanto, dois pólos da expressão de valor.
1)      Os dois pólos da expressão de valor: Forma Relativa de Valor e Forma Equivalente
A partir desse momento, Marx passa a operar o exame da relação entre uma mercadoria e outra. Salienta-se que comparar mercadorias, significa expressar uma na outra, ou seja, expressar o valor de uma no valor de uso da outra.
Marx nos adverte que duas mercadorias diferentes, A e B (casaco e linho), representam dois papéis distintos. O Linho expressa seu valor no casaco, o casaco serve de material para essa expressão de valor. Neste sentido, a primeira mercadoria (linho) representa um papel ativo, sob forma relativa de valor. Já a segunda mercadoria (casaco) representa um papel passivo, como equivalente, ou forma equivalente de valor (aquele que serve de material para a expressão de valor).
Para Marx, a Forma Relativa de Valor e a Forma Equivalente pertencem uma à outra, se determinam reciprocamente, são momentos inseparáveis, porém, ao mesmo tempo são extremos que se excluem mutuamente ou se opõem, ou seja, são pólos da mesma expressão de valor.
Vale observar que no itinerário que Marx está percorrendo ele está preparando o caminho para demonstrar a forma-dinheiro, ou seja, a forma equivalente geral que se transforma em dinheiro.
2)      A Forma Relativa de Valor
A)    Conteúdo da Forma Relativa de Valor
Como valores, as mercadorias são meras gelatinas (cristalizações) de trabalho humano, ou seja, trabalho humano abstrato. Nelas estão contidas dispêndio de força de trabalho do homem. Ao equipara-se, por exemplo, o casaco, como coisa de valor, ao linho, é equiparado o trabalho inserido no primeiro com o trabalho contido neste último. Marx está nos explicando que é o trabalho a substância do valor, ou melhor, que o trabalho é o elemento que gera o valor. Portanto, no processo de troca das mercadorias, troca-se o trabalho contido nelas.
Entre a alfaiataria e a tecelagem, ambos trabalhos concretos, qualitativamente distintos, existe algo que os iguala, o seu caráter comum de trabalho humano abstrato.  
Uma observação importante feita por Marx é que a força de trabalho do homem cria valor, porém não é valor. Ele torna-se valor em estado cristalizado, em gelatina, em forma concreta de linho, ferro, chá etc.
Neste sentido, para expressar o valor do linho como gelatina de trabalho humano ele deve ser expresso como uma “objetividade” concretamente diferente do linho mesmo e simultaneamente comum ao linho e outra mercadoria. Observa-se que o corpo da mercadoria casaco é um mero valor de uso.
Ademais, o que caracteriza o casaco como valor é o fato de que nele está contido trabalho humano acumulado, “ainda que essa sua propriedade não se veja mesmo através de sua forma mais puída”.
Por fim, como valor de uso é o linho uma coisa fisicamente diferente do casaco, como valor é algo igual ao casaco e parece, portanto, com um casaco.
B)    Determinação Quantitativa da Forma de Valor Relativa
 Em análise a determinação quantitativa da forma de valor relativa, Marx nos adverte que toda mercadoria, cujo valor deve ser expresso, é um valor de uso, em dado quantum, 15 arrobas de trigo, 100 libras de café etc.
Vejamos a equação:
20 varas de linho = 1 casaco, ou 20 varas de linho valem 1 casaco. Parte-se do pressuposto de que 1 casaco contém tanta substância de valor quanto 20 varas de linho, que ambas as quantidades de mercadorias custam assim o mesmo trabalho ou igual quantidade de tempo de trabalho.
I – Que mude o valor do linho, enquanto o valor do casaco permanece constante.
Marx, a partir desse momento, analisa a hipótese onde o valor do linho é alterado, enquanto o valor do casaco permanece constante. Parte do pressuposto de que se o tempo de trabalho necessário para a produção de linho dobra, então duplica o seu valor, ou seja, se mais trabalho, então, mais valor. Desta forma a equação em vez de 20 varas de linho = 1 casaco, seria 20 varas de linho = 2 casacos. Marx nos adverte que, se ao contrário, diminui o tempo de trabalho necessário para a produção do linho em conseqüência, por exemplo, da melhora dos teares, cai também o valor do linho pela metade.
Vale observar que uma mercadoria A tem o seu valor relativo expresso na mercadoria B.
II – Que o valor do linho permaneça constante, enquanto muda o valor do casaco.
Nesta hipótese, o valor do linho permanece constante, ou seja, com a mesma quantidade de trabalho, enquanto se altera o valor do casaco. Sendo assim, se duplica o tempo de trabalho necessário para a produção do casaco, duplica o seu valor. Desta forma, a equação em vez de 20 varas de linho = 1 casaco, tornar-se-ia agora 20 varas de linho = ½ casaco. Se, ao contrário, o valor do casaco cai à metade, então 20 varas de linho = 2 casacos.
Aqui cabe uma observação importante. Marx nos mostra que ao se compararem os diferentes casos, resulta que a mesma mudança de grandeza do valor relativo pode provir de causas totalmente opostas.
3)      A Forma Equivalente
Em síntese, ocorre a forma equivalente quando o valor de uma mercadoria A se expressa no valor de uso de uma mercadoria B. Ou seja, ao expressar uma mercadoria A (linho) seu valor no valor de uso de uma mercadoria diferente B (casaco) imprime-se a esta última uma forma peculiar de valor, a forma equivalente. Ademais, a forma equivalente de uma mercadoria é conseqüentemente a forma de sua permutabilidade direta com outra mercadoria. Visto que nenhuma mercadoria pode figurar-se como equivalente de si mesma.
A forma equivalente, segundo Marx, tem três características fundamentais, possui peculiaridades. A primeira refere-se ao fato de que quando se observa a forma equivalente percebe-se que o valor de uso torna-se forma de manifestação de seu contrário, ou seja, do valor. A segunda peculiaridade da forma relativa está no fato de que o trabalho concreto (qualitativamente distinto, útil) se converte na forma de manifestação de seu contrário, trabalho humano abstrato, trabalho em geral, dispêndio de força de trabalho do homem. Ou seja, o corpo da mercadoria que serve de equivalente figura sempre como corporificação de trabalho humano abstrato e é sempre o produto de determinado trabalho concreto. A terceira e última peculiaridade da forma equivalente deve-se ao fato do trabalho privado converter-se na forma de seu contrário, trabalho em forma diretamente social.
Marx, no processo de elaboração da sua teoria do valor-trabalho, procede análise acerca do filósofo Aristóteles, apreendendo as suas contribuições e limitações. Para Marx Aristóteles foi o pesquisador que primeiro analisou a forma de valor. Aristóteles declarava que a forma dinheiro da mercadoria é apenas a figura mais desenvolvida da forma simples de valor, isto é, da expressão de valor de uma mercadoria em outra mercadoria qualquer. Observa-se que Marx dá continuidade a essa idéia.
Segundo Marx, Aristóteles fracassa o prosseguimento de sua analise, por conta da falta do conceito de valor, ou seja, pela não descoberta do trabalho enquanto grandeza do valor, em verdade por limitações históricas. Ademais, o período de Aristóteles era o da sociedade grega, que tinha como base de sustentação material o trabalho escravo.
Marx considera que o gênio de Aristóteles está na descoberta de uma relação de igualdade na expressão de valor das mercadorias, idéia, que ele desenvolve, como vimos.
4)      O Conjunto da Forma Simples de Valor
Dando continuidade a sua investigação, Marx passa a analisar o conjunto da forma simples de valor. Segundo ele, a forma simples de valor de uma mercadoria está contida em sua relação de valor com outra mercadoria de tipo diferente, ou na relação de troca com a mesma. A forma simples de valor é uma forma embrionária, sofre uma série de metamorfoses até chegar à forma preço. Ademais, a forma simples de valor relativo de uma mercadoria corresponde à forma de equivalente individual de outra mercadoria.
Neste sentido o valor de uma mercadoria A é expresso qualitativamente por meio da permutabilidade direta da mercadoria B com a mercadoria A. Aqui surge uma questão fundamental: a forma valor só pode ser expressa na relação entre as mercadorias.
Existe para Marx, na forma mercadoria, uma antítese interna que é oculta (relação entre valor de uso e valor), esta, representada por meio de uma antítese externa, ou seja, por meio da relação de duas mercadorias.
Marx, em seguida, nos adverte com a seguinte questão, esta, fundamental, para a nossa investigação, a saber:
“O produto de trabalho é em todas as situações sociais (ou seja, em todos os modos de produção) objeto de uso, porém uma época historicamente determinada (a época da sociedade burguesa moderna) de desenvolvimento – a qual apresenta o trabalho despendido na produção de um objeto de uso como sua propriedade ‘objetiva’, isto é, como seu valor – transforma o produto de trabalho em mercadoria” (MARX, 1988, p.63).
C)    Forma de Valor Total ou Desdobrada
Marx representa a forma de valor total ou desdobrada pela equação: 20 varas de linho = 1 casaco ou = 10 libras de chá ou = 40 libras de café ou = 1 quarter de trigo ou = 2 onças de ouro ou = ½ tonelada de ferro etc.
1)      A Forma Relativa de Valor Desdobrada
O valor de uma mercadoria, do linho, por exemplo, é agora expresso em inumeráveis outros elementos do mundo das mercadorias. Qualquer outro corpo de mercadoria torna-se espelho do valor do linho. Assim, aparece esse valor mesmo pela primeira vez verdadeiramente como gelatina de trabalho humano indiferenciado. Visto que o trabalho que o gera é agora expressamente representado como trabalho equiparado a qualquer outro trabalho humano, ou seja, trabalho humano abstrato. 
Marx analisa aqui o processo de equiparação entre mercadorias não mais de maneira isolada, agora o linho encontra-se em relação social com o mundo das mercadorias, ou seja, nas suas próprias palavras “desaparece a relação eventual de dois donos individuais de mercadorias”.
2)      Forma Equivalente Particular
Aqui, Marx opera análise da forma equivalente particular, onde cada mercadoria, casaco, trigo, chá, ferro etc., vale na expressão de valor do linho como equivalente e, portanto, como corpo de valor. A forma natural determinada de cada uma dessas mercadorias é agora uma forma equivalente particular ao lado de muitas outras.  
3)      Insuficiências da Forma de Valor Total ou Desdobrada
Para Marx as insuficiências da forma de valor total ou desdobrada refletem-se na sua forma equivalente correspondente.
D)    Forma Geral de Valor
1 casaco                      =
10 libras de chá          =
40 libras de café         =
1 quarter de trigo        =                   20 varas de linho (equivalente geral)
2 onças de ouro           =
½ tonelada de ferro     =
 
1)      Caráter Modificado da Forma Valor
Marx analisa as duas formas de valor (forma relativa de valor e a forma equivalente). Para ele a primeira forma só se encontra na prática dos primeiros começos, quando produtos de trabalho se transformam em mercadorias por meio de troca casual e ocasional. A segunda forma, por conseguinte, distingue o valor de uma mercadoria de seu próprio valor de uso de maneira mais completa, pois o valor do casaco, por exemplo, confronta agora sua forma natural em todas as formas possíveis, como algo igual ao linho, ao ferro, ao chá etc., como tudo antes, exceto algo igual ao casaco.
Vale observar que esse processo refere-se à gênese da constituição histórica da forma dinheiro.
No que tange à forma valor geral, Marx adverte que ela surge como obra comum do mundo das mercadorias. Ou seja, uma mercadoria só ganha expressão geral do valor porque simultaneamente todas as demais mercadorias expressam seu valor no mesmo equivalente e cada nova espécie de mercadoria que aparece tem que fazer o mesmo.
Ademais, a forma valor geral representa os produtos de trabalho como meras gelatinas (cristalizações, concentrações) de trabalho humano indiferenciado, trabalho abstrato.
2)      Relação de Desenvolvimento da Forma Valor Relativa e da Forma Equivalente. 
Para Marx a Forma Valor Relativa e a Forma Equivalente se desenvolvem simultaneamente na mesma proporção. Ao grau de desenvolvimento da forma valor relativa, corresponde o grau de desenvolvimento da forma equivalente. Ou seja, o desenvolvimento da forma equivalente é expressão e resultado do desenvolvimento da forma valor relativa, há, portanto, uma relação dialética.
 
3)      Transição da Forma Valor Geral para a Forma Dinheiro
Em primeiro lugar, Marx nos explica que a forma equivalente geral é uma forma do valor em si, ela pode ser recebida por qualquer mercadoria.
Ademais, a forma-dinheiro é um desdobramento da mercadoria, antes, porém, era um gênero específico de mercadoria que se transformou em mercadoria-dinheiro, cumprindo função especificamente social, sendo historicamente consumada, por meio do hábito social. A forma-dinheiro assume, portanto, papel de ser equivalente geral dentro do mundo das mercadorias.
Marx adverte que o ouro, por exemplo, só se confronta com outras mercadorias como dinheiro por já antes ter-se confrontado a elas como mercadoria.
Aqui surge uma questão, do que se trata a forma preço? Para Marx, a forma preço é uma determinação do valor, é a expressão relativa simples de valor de uma mercadoria A (linho, por exemplo), na mercadoria que já funciona como mercadoria dinheiro (ouro, por exemplo). Vejamos: A “Forma Preço” do linho é, pois: 20 varas de linho = 2 onças de ouro.
  1. O Caráter Fetichista da Mercadoria e seu Segredo.
Para tratar acerca da questão do caráter fetichista da mercadoria, Marx, retoma a análise da mesma enquanto valor de uso. A primeira vista, diz Marx, a mercadoria parece uma coisa simples, trivial, evidente, porém, analisando-a, vê-se complicada, dotada de sutilezas.
Antes, porém, enquanto valor de uso não há nada de misterioso nas mercadorias. Elas satisfazem necessidades humanas pelas suas propriedades, estas, produto do trabalho humano, dispêndio de cérebro, nervos, músculos, sentidos etc., dos homens. O que possibilita Marx concluir que o caráter místico das mercadorias não provém de seu valor de uso.
Para o autor, o caráter enigmático do produto de trabalho, tão logo ele assume a forma mercadoria, provém da própria forma mercadoria. O misterioso da forma mercadoria consiste, portanto, simplesmente no fato de que ela reflete aos homens as características sociais do seu próprio trabalho como características objetivas dos próprios produtos de trabalho, como propriedades naturais sociais dessas coisas e, por isso, também reflete a relação social dos produtores com o trabalho total como uma relação social existente fora deles, entre objetos. Ou seja, através do trabalho, os homens transformam a natureza nos meios de produção e de subsistência necessários à sua reprodução, a partir desse processo, os produtos do trabalho se tornam mercadorias, coisas físicas, metafísicas ou sociais, assumindo forma objetiva.
No interior desta relação social está o fato de que os próprios homens produzem as mercadorias, que assumem relação externa ao homem, passam a ter vida própria, tornam-se figuras autônomas, que mantém relações entre si e com os homens.
Marx, de maneira brilhante, nos adverte que o caráter fetichista da mercadoria provém do caráter social peculiar o trabalho que produz mercadorias. Ademais, visto que as mercadorias precisam ser trocadas, a relação de troca figura-se, porém, não como relações diretamente sociais entre pessoas em seus próprios trabalhos, senão como relações reificadas entre as pessoas e relações sociais entre as coisas.
Marx observa que a cisão do produto de trabalho em coisa útil e coisa de valor realiza-se apenas na prática, tão logo a troca tenha adquirido extensão e importância suficientes para que se produzam coisas úteis para serem trocadas, de modo que o caráter de valor das coisas já seja considerado ao serem produzidas. Esta cisão se dá com o processo de desenvolvimento das relações capitalistas de produção.
Dando seqüência à sua análise, Marx nos adverte com outro elemento fundamental para a investigação acerca da categoria trabalho e seu desenvolvimento à condição de trabalho abstrato, a saber:
“A partir desse momento, os trabalhos privados dos produtores adquirem realmente duplo caráter social. Por um lado, eles têm de satisfazer determinada necessidade social, como trabalhos determinados úteis, e assim provar serem participantes do trabalho total. Por outro lado, só satisfazem às múltiplas necessidades de seus próprios produtores, na medida em que cada trabalho privado útil particular é permutável por toda outra espécie de trabalho privado, portanto lhe equivale” (MARX, 1988, p. 71-72).
Por fim, Marx conclui o primeiro capítulo d’ O Capital, afirmando que sob a égide da formação social capitalista, o processo de produção domina os homens. O ato-histórico de libertação das amarras que os prende é, portanto, tarefa imprescindível para a construção de uma sociabilidade para além do capital, visto que,
“a figura do processo social da vida, isto é, do processo da produção material, apenas se deprenderá do seu místico véu nebuloso quando, como produto de homens livremente socializados, ela ficar sob seu controle consciente e planejado” (MARX, 1988, p. 76). 

 

 
Comentarios:  
 

muito bom esse texto ai eim vai ajudar muito. vlw!

vitor severino   Data: 16/09/2009
Faça um comentario para este texto!